HOMENAGEM

Iria Brzezinski: formação docente, práxis e compromisso histórico-político

Homenagear Iria Brzezinski é reconhecer uma trajetória que se inscreve no próprio movimento histórico de constituição da formação de professores(as) no Brasil como campo de disputa política e epistemológica, tendo como premissa, nos seus estudos e trabalhos, o materialismo histórico-dialético, no pensar o concreto real, no elaborar o concreto pensado e no transformar o real em novas sínteses emancipatórias.

Doutora em Educação e professora da Universidade de Brasília e da Pontifícia Universidade de Goiás, tornou-se uma intelectual de referência, pois a sua produção não apenas interpreta a realidade educacional, mas intervém nela, delineando horizontes para a construção de uma docência crítica e socialmente comprometida com um projeto de sociedade emancipador.

Entre suas realizações, destacam-se suas análises sobre políticas de formação, sua participação em instâncias nacionais e, sobretudo, sua capacidade de formar sujeitos críticos. Sua obra não apenas sistematiza debates, mas convoca à ação, ao evidenciar que a formação de professores é inseparável do projeto de sociedade que se deseja construir

Ao longo de sua obra, Brzezinski sustenta que a formação de professores(as) não pode ser reduzida a um conjunto de competências técnicas, mas deve ser compreendida como um processo histórico, coletivo e intencional, vinculado às condições concretas de produção da vida social. Em seus estudos sobre políticas de formação docente, a autora evidencia como as reformas educacionais, muitas vezes orientadas por racionalidades gerencialistas, tensionam a identidade profissional docente, deslocando-a de sua dimensão intelectual para uma lógica de execução. Em contraposição, defende a formação como espaço de construção da autonomia intelectual e da consciência crítica dos professores.

Sua atuação na Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (Anfope), como presidenta e membro atuante, reafirma esse compromisso, ao contribuir para a elaboração de princípios que concebem a docência como prática social e política, inseparável das lutas pela democratização da educação. Em seus escritos, a identidade docente aparece como construção histórica, forjada na articulação entre trabalho, formação e participação coletiva, o que implica reconhecer o(a) professor(a) como sujeito ativo na produção de conhecimento e na transformação da realidade escolar.

A sua participação na Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), especificamente no GT 08 - Formação de Professores, também se destaca como expressão de seu compromisso com a produção científica crítica e com a consolidação do campo educacional no Brasil. Nesses espaços de debate sobre formação de professores(as) e políticas educacionais, Iria Brzezinski contribuiu para fortalecer uma agenda investigativa comprometida com a leitura histórica e social da educação, tensionando perspectivas reducionistas e reiterando o papel da pesquisa como prática socialmente referenciada. Sua presença nos grupos de trabalho e nos locais de deliberação científica foi marcada pela defesa da articulação entre produção de conhecimento, formação docente e intervenção política, evidenciando que a pesquisa em educação não pode se dissociar das lutas concretas pela escola pública e pela valorização do magistério. Nesse sentido, sua atuação na Associação ratifica uma concepção de ciência comprometida com a práxis, na qual investigar é também tomar posição diante das desigualdades e contribuir para a construção de alternativas emancipatórias.

Nessa direção, a contribuição de Brzezinski afirma a indissociabilidade entre teoria e prática ao compreender o conhecimento como expressão da atividade humana situada historicamente. A sua reflexão possibilita entender a formação docente como movimento de totalidade, no qual a prática educativa não se reduz à aplicação de saberes, mas constitui-se como espaço de produção de sentidos, de crítica e de intervenção no mundo. Trata-se, portanto, de uma concepção que reposiciona a docência como trabalho intelectual e como ação transformadora.

Em sua produção, a formação de educadores é afirmada como espaço de disputa de projetos societários, recusando qualquer perspectiva de neutralidade. Ao analisar as políticas da área, a autora evidencia que estas expressam concepções de sociedade em confronto, denunciando processos de aligeiramento formativo, de tecnicismo e de desprofissionalização docente (Brzezinski, 2011). Em contraposição, defende uma base sólida, crítica e articulada às condições concretas do trabalho, consolidando a educação como direito e como prática emancipadora.

Um dos eixos centrais de sua obra reside na percepção da identidade docente como construção histórica e coletiva. Para Brzezinski, o(a) professor(a) não é um sujeito previamente dado, mas se constitui na relação com as políticas educacionais, com as instituições formadoras e com a prática pedagógica (Brzezinski, 2002). Essa perspectiva desloca o olhar da formação como treinamento para um processo de constituição de sujeitos críticos, capazes de compreender a realidade e de intervir nela.

A defesa da docência como profissão de caráter intelectual atravessa toda a sua produção. Ao problematizar as condições de trabalho e as políticas educacionais, Brzezinski explicita as tensões entre profissionalização e desprofissionalização, reafirmando a necessidade de valorização docente e de fortalecimento das universidades públicas como espaços privilegiados de formação. Sua obra, nesse sentido, constitui uma crítica consistente à racionalidade instrumental e uma defesa vigorosa da qualidade práxis formativa da educação.

Em profunda convergência com a sua práxis, sua reflexão afirma a indissociabilidade entre conhecimento, ação e transformação. Formar professores(as), em sua perspectiva, é formar sujeitos históricos, capazes de produzir consciência e intervir no mundo. Trata-se de compreender a docência como prática que articula saberes, valores e intencionalidades, orientada pela construção de uma sociedade mais justo.

Querida professora Iria, sua trajetória permanece como presença viva nas lutas contemporâneas pela educação pública. Sua palavra nos ensina que formar é um ato político e que ensinar é, sempre, um gesto de esperança radical. Seguimos com você — na crítica, na práxis e na construção de futuros possíveis

Não poderiaterminar este texto de uma homenagem “acadêmica”, sem recorrer a outras formas de linguagem que expressam a nossa querida e para sempre Iria Brzezinski.


Iria, nossa permanente 

Iria,
teu nome não é passado —
é verbo em movimento.

És daquelas que não cabem
nas linhas do currículo,
porque escreveste
na carne viva da história
o sentido de ser professora.

Caminhaste onde a educação
era mais do que política pública:
era trincheira,
era palavra insurgente,
era gesto de quem acredita
que formar é transformar.

Na dureza dos tempos,
não escolheste o silêncio.
Escolheste a luta.
E fizeste da docência
um lugar de pensamento —
um lugar de práxis.

Entre papéis, encontros, assembleias,
ergueste, com tantas mãos,
um projeto de formação
que não se curva ao imediato,
que não se vende ao fácil,
que não esquece o povo.

Na ANFOPE,
na ANPEd,
em cada espaço de disputa,
foste presença —
não apenas institucional,
mas profundamente política.

Iria,
tu nos ensinaste
que professor não nasce pronto,
se faz —
na história,
na contradição,
na esperança teimosa
de quem não desiste do mundo.

Teu pensamento segue
como semente inquieta,
germinando em cada sala de aula
onde alguém ainda ousa ensinar
como quem luta.

E nós,
que aprendemos contigo,
seguimos —
não como quem repete,
mas como quem continua.

Porque tua obra não termina:
ela atravessa.

Iria,
nossa permanente,
nossa presença que insiste,
nossa palavra que resiste —
seguimos contigo,
na educação que sonha,
na práxis que transforma,
na história que ainda vamos fazer.

Iria, presente!
Kátia Augusta Curado Pinheiro Cordeiro da Silva

Bibliografia básica da autora
BRZEZINSKI, Iria. Formação de profissionais da educação: políticas e perspectivas. Goiânia: Editora UFG, 2011.
BRZEZINSKI, Iria. Formação de professores: desafios e perspectivas. In: BRZEZINSKI, Iria (org.). Formação de professores: princípios e desafios. Campinas: Papirus, 2008.
BRZEZINSKI, Iria. Profissão professor: identidade e profissionalização docente. Brasília: Plano, 2002.